É com profunda tristeza que vejo a classe política contemporânea envolvida em desvios morais e éticos em escala absurdamente ampla, que tem desmoralizado o modelo político da democracia representativa. Diante desse quadro me pergunto: Foi para isso que muitos lutaram, resistiram e morreram para restabelecer a liberdade e os direitos democráticos, negados durante 21 anos de ditadura militar e seu regime repressor?
A frustração com os rumos que a nossa política contemporânea se encontra, nos faz perceber que chegamos ao fim de um ciclo político atrasado, corrupto onde o cinismo e a impunidade são à base de regra da maioria dos atores políticos. No passado, os valores morais e a ideologia política eram os fundamentais balizadores do resgate e construção da nossa democracia que alimentavam o sonho do avanço da justiça social e da igualdade de oportunidades, essenciais ao desenvolvimento humano e social.
A classe política de hoje está desconectada da realidade da sociedade, sem credibilidade e por ela rejeitada. A cada avanço nas investigações que tratam de casos de corrupção que envolve o desvio de recursos públicos, aparecem novos políticos envolvidos, alguns em vários casos, e a reação são a mesma. Todos os envolvidos em escândalos de corrupção se colocam na condição de vitima, de perseguidos e injustiçados, e sempre repetem o mesmo jargão: “eu não sabia de nada...”.
Para alguns, as evidencias de sua participação e de sua culpa são tão fortes, que mesmo diante de fatos irrefutáveis resistem, insistindo no cinismo que de tão descarado só consegue a solidariedade dos seus pares mais próximos e “amigos” de interesse levados pela conveniência de momento.
É triste constatar que temos poucos políticos íntegros em nosso país. O atual momento de grave crise na representação política nos remete a uma realidade que DURKHEIM chamou de Estado de Anomia, que ocorre quando o equilíbrio das instituições sociais se rompe. Num país no qual o tecido social é frágil pela ignorância e pelas carências sociais que levaram a um processo de exclusão econômica e social da maior parte da população; o rompimento deste equilíbrio fatalmente levará a uma convulsão social sem precedentes em nosso país.
Em nível político, o descrédito da instituição partidária, que ao retirar a política do plano das ideias a levou a um personalismo que transformou em politicagem; causou proliferação de dinastas políticos que se tornaram capôs das máfias travestidas em partidos, que cometeram todo tipo de desmandos e levaram os tradicionais vícios da nossa vida política, como o clientelismo e o patrimonialismo, a um padrão de roubalheira descarada, tanto pela esquerda quanto pela direita, que quebrou o Estado brasileiro como um todo, quer seja nos municípios, Estados e na União.
Sem alternativas de qualquer matiz ideológicas, sem lideranças com credibilidade, e sem instituições confiáveis, temos um porvir muito incerto a curto e médio prazos, infelizmente.
De positivo, percebe-se
que esse sistema político clientelista, assistencialista e patrimonialista
apodreceu. Não há mais espaço para cinismo e falsos moralistas. O combate à
corrupção precisa ser sistemático. É triste constatar que temos poucos
políticos íntegros em nosso país!!!
Amaury Cardoso