quinta-feira, 23 de agosto de 2018

A INADMISSÍVEL VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER - ARTIGO: JUNHO/2018


Durante o processo histórico da humanidade a sociedade comumente determina as diferenças de gênero baseadas na construção cultural de que o homem, por ser superior, engloba, e representa a mulher. Este modelo social é bidimensional, ou seja, a relação hierárquica é composta de dois níveis, o superior representado pelo homem e o inferior representado pela mulher. A representação das mulheres como sujeitos inferiores é fortemente difundida em diversos tempos históricos.

Foi no início dos anos 60 que se iniciou uma revolução dentro dos setores das ciências humanas. Áreas como filosofia, sociologia e história criaram departamentos exclusivos para discussões sobre as questões de gênero. Assim, o feminismo revolucionário passou das fogueiras de sutiãs e das passeatas às cadeiras das universidades com os “estudos de gênero”. 

No Brasil, a luta pela conquista da emancipação da mulher se manifesta tardiamente, apesar das primeiras duas décadas do século XX ser palco de uma breve emergência do movimento caracterizado, principalmente, nas greves de 1917, na Semana de Arte Moderna de 1922 e, nesse mesmo ano, na fundação do Partido Comunista do Brasil. 

Em 1932 as mulheres conquistam o direito de votar no Brasil, mas é também neste período que os padrões normativos da ideologia da domesticidade se constituem como ponto comum no meio social, diante de uma cultura forjada no forte domínio da figura do homem, cabendo ressaltar que o Brasil se organizou desde 1500 numa estrutura patriarcal, onde as filhas mulheres saiam da dominação do pai para passarem à dominação de seu marido. 

Foi entre os anos 30 e 60 que assistimos à emergência de um expressivo movimento feminista, organizado como “Movimento de Mulheres”, de origem das camadas médias e na maioria intelectualizadas, que buscavam novas formas de expressão da individualidade, questionador não só da opressão machista, mas dos códigos da sexualidade feminina e dos modelos de comportamento impostos pela sociedade de consumo. 

A partir dos anos 80, iniciou-se com mais intensidade um movimento de recusa radical dos padrões sexuais e do modelo de feminilidade vigente. Mais do que nunca, as luta pela emancipação e igualdade de direitos passou questionar o conceito de mulher que as afirmavam enquanto sombra do homem e que lhes dava o direito à existência apenas como apêndice de uma relação, no público ou no privado. 

Sem dúvida, ao longo do século XX, foi no seu final que se passou a registrar as muitas das conquistas alcançadas pela mulher brasileira em todos os campos da vida social, especialmente no que se refere à aceitação das mulheres no mercado de trabalho e ao seu reconhecimento profissional. 

 No entanto, não há como negar o fato de que todas as conquistas arduamente ganhas ao longo dessas últimas décadas não estão consolidadas. Ao contrário, são continuamente ameaçadas por pressões machistas, pelo mercado de consumo e pelo conservadorismo desenfreado. 

 Este ano a Lei Maria da Penha completou 12 anos de existência e se tornou um marco essencial da conquista feminina, somando-se a ela a Lei 11.340, promulgada em 2006, que visa coibir agressões dentro de casa, e a Lei 13.104, conhecida como Lei do Feminicídio, promulgada em 2015. Contudo, infelizmente, tem se revelado insuficiente ao combate a permanência da brutalidade machista, que está enraizada por ser uma herança cultural do Brasil. 

 O que se constata é que as agressões e homicídios fazem parte do cotidiano das mulheres brasileiras, independente da classe social, mas, especialmente as negras pertencentes à baixa camada social. Pesquisas revelam que essa taxa de homicídios e crimes contra a mulher tem crescido em nosso país, onde o aumento da violência contra a mulher – crime de feminicídio - subiu cerca de 22%, colocando o Brasil entre os piores países nesse tipo de crime. O que se percebe é que as medidas de proteção ao crime contra a mulher através das leis existentes, embora fundamentais, não têm inibido a intolerância e atos de brutalidade contra elas.

Amaury Cardoso
Blog: amaurycardoso.blogspot.com.br

terça-feira, 24 de julho de 2018

A REVOLUÇÃO EDUCACIONAL DO SÉCULO 21 DIANTE DA QUARTA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL. - ARTIGO: MAIO/2018



É evidente a desconexão entre o sistema de ensino inspirado na sociedade de cerca de 200 anos atrás e a realidade que vivenciamos no século 21. Com o forte dinamismo tecnológico que impõe mudanças constantes no modo de vida da sociedade contemporânea, é certo que dois terços das crianças matriculadas no ensino fundamental trabalharão em carreiras que ainda não existem, bem como muitas das carreiras profissionais diante do acelerado avanço tecnológico deixarão de existir em breve espaço de tempo.
Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), estima-se que 35% das habilidades mais demandadas atualmente mudem em menos de 24 meses, ou seja, até 2020, influenciando no desaparecimento de 7,1 milhões de empregos.
O avanço tecnológico e a necessidade de desenvolver novas aptidões têm provocado uma grande mudança no setor educacional a nível mundial. O Brasil amarga um profundo atraso no campo da educação comprometendo fortemente sua condição de competitividade no mercado de trabalho, com risco de perder o atrativo de importantes investidores.
Torna-se imprescindível a mudança de mentalidade na visão e metodologia da educação brasileira, e essa mudança se inicia na forma tradicional de ensinar, permitindo ao aluno um maior protagonismo em sala de aula.
A universalização do ensino de qualidade precisa ser um compromisso da educação brasileira. O acesso a oportunidade de um ensino igual para todos, independente da classe social, é a garantia da igualdade de oportunidades para todos no campo educacional e profissional.
Se levarmos em consideração que oito em cada dez estudantes brasileiros estão em colégios públicos, a necessidade da garantia de um ensino de qualidade é condição fundamental e determinante para o nosso país, uma vez que a realidade do nosso atraso no campo educacional nos coloca em desvantagem absurda no campo do conhecimento e da inovação tecnológica.
Outro dado alarmante vem de um estudo da UNESCO, feito em 2017, que mapeou a educação de 35 países emergentes, entre eles o Brasil - que tem a maior quantidade de trabalhadores -, revelando estarem abaixo da média mundial em educação e podem se ver em meio a dificuldades na próxima década se não tiver o seu serviço público educacional revisado e reestruturado sua metodologia e grade curricular de ensino, visando seu fortalecimento no campo da qualidade.
Fato é que entre a educação desejada e a real há um abismo no sistema público brasileiro. E o método de ensino atrasado, ultrapassado, com infraestrutura escolar deficitária, com falta de profissionais preparados para trabalhar dentro de um moderno modelo de educação, com recursos financeiros insuficientes e/ou ineficientes gestão desses recursos, dentre outros óbices, tem sido durante décadas obstáculos ao avanço da revolução educacional pela qualidade em nosso país.
Na sociedade contemporânea, diferentemente do passado, os mestres/professores não são os detentores absolutos do conhecimento e sim facilitadores que devem adotar métodos mais colaborativos e flexíveis em sala de aula. Essa concepção de comportamento falta a uma grande parcela do nosso corpo docente. O Ministério da Educação precisa aceitar que com a aproximação da quarta revolução industrial, há uma necessária emergência na reformulação dos métodos de ensino, abraçando as novas tecnologias e reinventando nova metodologia, mais efetiva, de passar o conhecimento.
“Seja para professores, seja para empreendedores, seja para operários, seja para empresários, se existe uma habilidade que será imprescindível nesse novo contexto é a capacidade de aprender constantemente. Com o surgimento de novas carreiras e o aumento da expectativa de vida, grande parte da população continuará trabalhando depois de 60,70, 80 anos.”
Para nos mantermos competitivos e desejados pelo mercado atual e futuro, teremos de nos tornar eternos estudantes, pois as transformações que ocorrem nos exigem, de forma cada vez mais latente, constante atualização profissional. O processo do conhecimento é continuo e não mais, tão somente, construído nos bancos escolares até o inicio da fase adulta como ainda ocorre. A busca por novos conteúdos – seja através de jornais, revistas, aplicativos ou cursos de extensão/especialização – será necessária, e para tal devemos intensificar a prática do bom e velho método do autodidatismo.
Por fim, precisamos entender que o ensino ocorre fora dos espaços formais e tradicionais de educação.

Amaury Cardoso
Presidente da Fundação Ulysses Guimarães do Estado do Rio de janeiro – FUG/RJ.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

O FATO É QUE ESSE SISTEMA POLÍTICO DIFICULTA A RENOVAÇÃO - ARTIGO: ABRIL/2018



O cansaço do brasileiro com a política sinaliza uma onda de renovação crescente na representação política que se traduz no reflexo da indignação da sociedade com a corrupção endêmica que atingiu um elevado percentual da classe política. Segundo pesquisas 96% dos eleitores não se sentem representados pelos políticos e 93% sinalizam a necessidade de surgirem novas lideranças. Esse sentimento deve causar um impacto nas próximas eleições. Contudo, não sabemos se essa reação será forte o suficiente para inibir a força do dinheiro, diante de uma cultura política e eleitoral, em especial nas periferias onde se situam a camada social de baixa renda e com menos consciência política onde o assistencialismo e a compra de votos ainda vigoram.

Existem fatores que vão além da revolta com a classe política que podem, e eu espero que não, ter peso maior nas urnas em 2018. Destaco o fato dos recursos que irão financiar as campanhas estarem vinculado ao fundo partidário e ao fundo eleitoral, este criado com recursos públicos para esta eleição com a finalidade de suprir recursos privados obtidos com empresas que foram proibidos. Fica claro que o congresso ao aprovar o fundo eleitoral tinha o objetivo de favorecer os caciques partidários e a um significativo grupo de parlamentares que já tem mandato. É obvio que com mais dinheiro as chances de renovarem mandatos é grande, o que se confirma através da movimentação de parlamentares em trocar de partidos, preferencialmente para os grandes partidos em razão de terem mais dinheiro, onde a barganha da garantia de recursos para campanha é a mercadoria principal. Para muitos candidatos o alinhamento ideológico e programático não é mais referencia na escolha do partido político que irá concorrer.

Outro fator relevante é o fato da esperada alta taxa de abstenção de eleitores, em razão da desilusão com a política, e com isso caindo o coeficiente eleitoral, o que favorece a eleição de políticos com mandato, e conseqüentemente, com dinheiro que irá possibilitar alimentar a pratica da velha política da compra de votos através de pseudas “lideranças”, obtendo o mandato através de crime eleitoral.

Não podemos ser indiferente a sensação disseminada na maioria da sociedade que tudo não passa de um jogo de cartas marcadas, favorecido por essa estrutura política eleitoral viciada. Contudo, rejeitar a política parece fazer bem a nossa indignação, mas não resolve nada. Tenho afirmado em minhas publicações nas redes, artigos e palestras que o caminho da verdadeira reforma que nos interessa está na participação, no engajamento, na vigilância e cobrança daqueles que escolhemos para nos representar, e que esta escolha deve ser pautada no voto consciente e qualitativo de cada cidadão.

Não haverá mudança na atual pratica política sem que o eleitor desempenhe com responsabilidade e consciência seu papel. A reforma desse sistema político e eleitoral começa por mim, por você, por nós. Não percamos essa oportunidade!!!


Amaury Cardoso
Presidente Estadual da FUG/RJ
Blog de artigos: www.amaurycardoso.blogspot.com.br

terça-feira, 27 de março de 2018

O STF ESTA DIANTE DE UM DILEMA, RECUPERAR SUA CREDIBILIDADE OU PERMANECER SEM ELA - ARTIGO: MARÇO/2018



O STF atravessa uma crise de sérias conseqüências diante da sua frágil credibilidade junto à sociedade. Depois do episódio ocorrido com o senador Renan Calheiros, a época presidente do Senado, que na condição de réu viu sua permanência na linha sucessória da presidência da republica e, conseqüentemente sua condição de presidente do senado ameaçada, o que acabou tendo um desfecho esdrúxulo de ficar impedido de constar na linha sucessória, mas continuar a frente da presidência do senado federal. Houve outro episódio de extremo desgaste ocorrido com o senador Aécio Neves, que fora, provisoriamente, afastado do exercício do mandato tendo que permanecer em casa, e por pressão do senado federal o STF abriu mão de sua prerrogativa concedendo ao senado o poder de revisar decisão do supremo relativa aos senadores. 

O episódio ocorrido na sessão do Supremo Tribunal Federal do dia 22/03/18, onde por maioria seus ministros concederam uma liminar como salva guarda ao ex-presidente Lula, com o objetivo claro de impedir a sua prisão, foi uma vergonha. No momento em que o STF aceita, por 7 votos a favor e 4 contra, julgar o pedido de habeas corpus do petista, fica caracterizado para a grande maioria da sociedade que a Suprema Corte do Brasil não honra sequer as próprias decisões.

A Súmula 691 determina que a Corte não tome conhecimento de habeas corpus rejeitado por instância inferior, no caso o Supremo Tribunal de Justiça, tendo a quinta turma do STJ negado por unanimidade o provimento do pedido pautado na jurisprudência em vigor. Fosse o solicitante do pedido de habeas corpus um cidadão comum por certo passaria a Páscoa atrás das grades.

O princípio da presunção da inocência não impede o início da execução provisória da pena. Esse é o entendimento jurídico em vigor, onde a execução provisória não desrespeita a Constituição. Assisti estarrecido o STF acatar uma liminar verbal solicitado pelo advogado do Lula, concordando liminarmente mantê-lo solto até o julgamento do habeas corpus, que ocorrerá depois do descanso do feriado da semana santa. Triste absurdo!

Os magistrados do STF não conseguem enxergar o óbvio: a visão que a sociedade tem é a de que a Corte foi transformada em escritório de advocacia de bandidos notórios e de interesses escusos. O STF é motivo de vergonha! Como pode o STF cogitar julgar outra vez o tema da prisão em segunda instância se tomou a decisão de repercussão geral sobre a matéria em outubro de 2016? Difícil não acreditar que o fato do STF voltarem a discutir a prisão em segunda instância porque o TRF4 recusou os embargos de declaração da defesa de Lula e, com essa decisão, sua prisão será decretada.

Concordo com os que afirmam que se o STF aceitar o habeas corpus que livra o Lula da prisão estará readmitindo a volta da impunidade, o que será horrível, significando que Lula e todos os condenados com sentença confirmada estarão livres.

O dilema que envolve o julgamento do habeas corpus do Lula é de extrema gravidade. Caso seja concedido pelo STF, não só Lula, mas todos serão beneficiados. Abre-se a porta para a impunidade, o que será um retrocesso jurídico.


Amaury Cardoso
Presidente da FUG/RJ
Blog: www.amaurycardoso.blogspot.com.br

terça-feira, 20 de março de 2018

DEVEMOS EVITAR O RETROCESSO - ARTIGO: MARÇO/2018



Deixou-me intrigado a citação em artigo no jornal “O GLOBO” feita pelo fundador da ONG “Contas Abertas”, Gil Castelo Branco sobre um argumento do escritor italiano Giuseppe Di Campedusa no romance Il Gattopardo, de 1958, portanto a 60 anos atrás. Ele citava a elite encastelada que dominava a Sicilia e fazia de tudo para se manter no poder e evitar que o caos das ruas a afetasse.

Podemos fazer um paralelo com a indecorosa pressão das elites envolvidas nos escândalos de corrupção junto a juízes, ministro da Suprema Corte, e este junto à presidente do Supremo Tribunal Federal ministra Carmem Lúcia, no intuito de desfazer uma decisão aprovada no STF, por maioria, a cerca de um ano e meio atrás, acabando com a prisão após condenação em segunda instância.

Se tal fato vier a ocorrer, o que espero que não, será um enorme retrocesso a árdua luta contra a impunidade e tratamento diferenciado usufruído pela pequena nata da elite brasileira, além, é claro, de ser um golpe mortal ao avanço das penalizações em primeira e segunda instância, em especial na operação “Lava-Jato”.

Essa trama do sistema de poder em vigor, com o beneplácito de alguns magistrados, se vencedora, irá revelar, como afirma a ministra Carmem Lúcia, “ Que o STF se apequenará” diante da figura de Lula em razão da sua prisão.

No momento em que a sociedade saturada e indignada clama pelo fim da impunidade aos crimes que envolvem membros da elite política e econômica, este retrocesso, se vier a ocorrer, terá considerável conseqüência no seio da sociedade com reflexos no processo eleitoral que se aproxima.

Há quem ache que nada irá mudar nas próximas eleições, eu, particularmente, acredito que irá ocorrer um percentual acima de 50% de eleitores que irão optar pelo “NÃO VOTO”, somatório de votos nulos e brancos. Contudo, também acho que tal fato irá beneficiar grande parcela da atual elite política nesta legislatura, que terão junto a seus partidos um montante maior de recursos financeiros, que no atual modelo político, e com uma prevalência de uma sociedade de baixa educação, baixa cultura de participação política e por conseguinte, baixo poder de discernimento político e análise crítica, continuará presa a prática da velha e indecente política da relação assistencialista, clientelista e corrupta da compra e venda voto, possibilitando a permanência através da reeleição de um percentual elevado dos atuais políticos na faixa entre 60% e 70%.

Sinceramente torço e espero que o contágio da indignação seja forte o suficiente para fazer com que o cidadão eleitor não aceite mais ser desrespeitado na sua dignidade por aquele político mal intencionado que compra o seu voto.

É claro que quem vende o voto é culpado pela eleição da crescente parcela de maus políticos, políticos na maioria despreparados e mal intencionados, que visam seu benefício pessoal, ou seja, seu enriquecimento, e dessa forma contribui para denegrir o processo político brasileiro e manter a continuidade das mazelas sociais, não permitindo a ascensão da classe marginalizada em nosso país. 
Isto é um fato irrefutável!



Amaury Cardoso
Presidente da FUG/RJ


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

SEM GARANTIA DO AVANÇO SOCIAL NÃO SE CONQUISTA A PAZ - ARTIGO: FEVEREIRO/2018


A intervenção federal na segurança do Estado do Rio de Janeiro evidência que falta comando no executivo estadual. Infelizmente não há governo. Contudo, o mais agravante é que a ineficiência que leva ao caos não é fato isolado de uma unidade da federação. A falta de governabilidade atinge várias instâncias do poder executivo, tornando preocupante o momento que o país atravessa.

Entendo ter sido uma medida necessária e de suma importância diante do quadro de gravidade, beirando o caos, que se instalou através das ações crescentes de violência praticadas pelo crime organizado que aterrorizam a população em nosso Estado. Contudo, a meu ver, a intervenção só como instrumento único de combate a violência não será suficiente, arriscando que esta medida drástica se torne um fracasso caso não venha acompanhada de ações mais amplas, onde entendo deva ser observados quatro pontos primordiais como garantia de êxito dessa delicada intervenção federal.

Primeiro, é fundamental a realização de um profundo diagnóstico da situação interna e externa do setor da segurança pública que balize o necessário planejamento estratégico, bem como promover as ações calcadas em um rigoroso serviço de inteligência e, obviamente, ter garantido os recursos financeiros necessários a ampla operação;
Segundo, será um erro estratégico atacar a violência sem antes promover uma limpeza na estrutura de segurança do Estado, retirando da instituição da segurança pública os vícios de corrupção praticados pela chamada “Banda Podre”, enraizada em varias instancias de comando. Não fazê-lo é permitir que todo o esforço que for empreendido seja minado na sua cadeia de execução;
Terceiro, atacar a violência sem, concomitantemente, tratar dos graves problemas sociais, em especial nas áreas subjugadas ao crime, tem tudo para fracassar, pois é da exclusão social, da miséria e ignorância que o crime se alimenta e mantém o ciclo vicioso da dependência e do medo.

O combate ao crime organizado, para ter chance de êxito, precisa estar atrelado à implantação de projetos sociais, investimento humano que promova cidadania e garantia de serviços básicos: creches que ajudem as famílias de baixa renda na formação infantil, escolas em regime de ensino integral e de qualidade, postos de saúde e clinicas da família com acompanhamento preventivo, saneamento básico, policiamento comunitário e programas de incentivo ao esporte e cultura.

Se a ação for só de repressão não estará atacando a causa da violência que vem da carência social e falta de oportunidades, que gera o crime. Para o verdadeiro sucesso torna-se indispensável implantar projetos e programas sociais como forma de oportunizar o desenvolvimento da cidadania, criando a perspectiva de uma vida melhor para as pessoas que vivem a margem da sociedade, em especial os jovens que vivem sem perspectiva de se inserir no mercado de trabalho, por conseguinte sem futuro.

Se esta intervenção federal na segurança ficar com foco na garantia da lei e da ordem e não aproveitar a oportunidade para adotar medidas que ataquem o núcleo do problema gerador da violência e do crime que é a exclusão social, alimentada pela pobreza extremada e a forte concentração de renda entre poucos, irá, repito, fracassar abrindo a oportunidade para o retorno da violência, e desta vez em maior proporção, com graves conseqüências de desagregação social.

Uma nação só avança com produtividade e distribuição de oportunidade e renda, e, para tal, só através de educação de qualidade para os excluídos socialmente. A garantia do avanço social é a única forma de tirá-los da exclusão e da opressão da ignorância possibilitando a conquista da Paz Social.

O fato é que sem credibilidade o atual modelo político, social e econômico faliu, não tem futuro.

                                                              
AMAURY CARDOSO
Presidente da Fundação Ulysses Guimarães do Estado do Rio de Janeiro.
Email: amaurycardosopmdb@yahoo.com.br

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

CONCESSÕES E REGALIAS NO ESTADO BRASILEIRO, HERANÇA DO PATROMONIALISMO - ARTIGO: Fevereiro/2018




Aproveito a saudável discussão sobre o aspecto moral da concessão do “Auxílio Moradia” a certas castas do serviço público que compõe o alto patamar da burocracia do Estado, nos poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário, para tecer minha observação sobre a polêmica em questão.

Cabe deixar claro que tais concessões ocorrem há décadas, e que é reflexo de uma cultura patrimonialista de poder. Esta, a meu ver, distorção será objeto de análise do Supremo Tribunal Federal – STF, que dentre outras regalias concedidas a altas autoridades de Estado, destacando a prerrogativa de “Foro Privilegiado”, deva merecer revisão da suprema corte.

Importante destacar que este assunto, coincidentemente, volte à tona com a exploração do episódio do caso de concessão de auxílio moradia dos juízes federais de primeira instância que mais se destacam no julgamento dos inquéritos que envolvem a operação Lava-Jato. Refiro-me aos juízes Sergio Moro e Marcelo Bretas.

Entendo que o fato desses magistrados receberem o auxílio moradia, mesmo morando em imóveis próprios, não faz deles criminosos em razão de estarem recebendo este adicional, que, aliás, segue rigorosamente as normas baixadas pelo Conselho Nacional de Justiça, uma vez que este benefício concedido aos magistrados foi criado pela Lei Orgânica da Magistratura, em 1979.

Para mim está claro que esse episódio vem sendo utilizado politicamente pelos atingidos na investigação da Lava-Jato, na tentativa de desmoralizá-los por estarem a frente das condenações aos corruptos que se achavam intocáveis.

A burocracia Estatal e seu vertente patrimonialista, que evidencia ser um comportamento típico dentro do Estado Brasileiro, favorecem a existência de outros benefícios “caixas-pretas”, que precisam acabar. Os três poderes da República tomaram para si benefícios, privilégios e prerrogativas que os coloca no limite do “Ólympos”.

Concluo afirmando que pelo aspecto moral não há mais espaço na sociedade contemporânea para benefícios que tem como objetivo criar penduricalhos para elevar vencimentos, muito menos privilégios e prerrogativas em demasia. A sociedade clama por moralização, eficiência de gestão e transparência no trato da coisa pública.


Amaury Cardoso

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

INICIAMOS UM ANO ELEITORAL CHEIO DE IMPREVISIBILIDADES - ARTIGO: Janeiro/2018.



No campo da política o ano de 2018 inicia com uma grande reviravolta após a decisão unânime dos três desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª região – TRF - 4, que em julgamento na 2ª instância, ratificaram a condenação de Lula conferida em 1ª instância pelo juiz federal Sergio Moro, com o agravante do aumento da pena, passando a 12 anos e 1 mês de reclusão.

Esta decisão, indiscutivelmente, coloca Lula fora do pleito eleitoral em razão de sua condenação por um colegiado, incluindo-o na Lei da Ficha Limpa. Qualquer opinião contrária, a meu ver, é pura bravata, podendo ser considerada como incentivo a desobediência jurídica, o que não tem cabimento por ferir o Estado Democrático de Direito. O Partido dos Trabalhadores ao argumentar “que somente as urnas podem condenar ou absolver Lula” revela um ato claro de politizar a decisão judicial e afrontar o poder judiciário.

O poder Judiciário, em especial no julgamento dos casos de corrupção, tem atuado de forma rigorosa e a condenação de Lula é um exemplo desse rigor com o núcleo do poder político, como tem sido com o núcleo econômico com a prisão de grandes empresário-empreiteiros envolvidos no esquema corrupto que esta sendo desnudado nas investigações da operação Lava-Jato.

Em um país de cultura patrimonialista onde a impunidade sempre imperou para os ricos e poderosos, é para o povo brasileiro motivo de comemoração. O acinte do PT em querer desafiar o poder judiciário, com sua direção partidária incitando a militância a se insurgir contra a condenação de seu líder com ameaças de morte, brigas de rua e quebra-quebra é inaceitável, um afronte a democracia e ao Estado Democrático de Direito. O esperado e propagado pelos petistas “levante popular contra a justiça”, em razão da condenação de Lula por unanimidade dos desembarcadores em julgamento em 2ª instância, não ocorreu o que demonstra que diferentemente do PT, a grande maioria da sociedade reconhece a culpa de Lula e os erros do seu partido ao patrocinar nos seus 13 anos de governo a corrupção institucionalizada.

Não obstante este fato, em parte superado, o cenário político aguarda outros desdobramentos com o desenrolar das investigações da operação Lava-Jato, envolvendo outros capítulos que podem trazer mais implicações ao cenário político eleitoral.

O cidadão eleitor cansou das incoerências nas alianças partidárias onde o perfil ideológico e as questões programáticas deixaram de serem parâmetros balizadores de uma aliança política. Cansou das alianças realizadas com o único interesse de participar e dividir o poder e dele se beneficiar. Cansou de ver os mesmos partidos

 que participam do governo do partido vencedor “A”, também, participarem do governo do partido adversário vencedor “B”. Os mesmos partidos que se atacam se unem quando o interesse em jogo é conquistar o poder e depois dividi-lo. Essa política pragmática e casuística é rejeitada pela grande maioria da sociedade que não aceita mais o jogo fisiológico revelado nessas alianças esdrúxulas.

A sociedade cansou das falsas verdades, não acreditam mais nelas pelo fato da realidade por ela vivida a desmentir. O que percebem é um vazio de lideres com credibilidade, com coragem e capacidade transformadora que assegure mudanças através de reformas estruturantes que propicie o real desenvolvimento social e econômico, e através dele o avanço da justiça social, da distribuição de renda e igualdade de oportunidades, capaz de garantir o acesso da grande massa da população a uma educação de qualidade, e com isso, tirando-a da margem da ignorância excludente.

A incapacidade das instituições partidárias e a classe política de admitirem o fim desse ciclo político patrimonialista, assistencialista, fisiológico e corrupto estão impedindo o Brasil e a sua jovem democracia de avançarem. Tudo indica que a eleição de 2018 irá revelar um elevado grau de inconformidade do eleitor com a classe política, levando as eleições de 2018 há virem a ter um alto número de “NÃO VOTANTES”.

Iniciamos um ano eleitoral cheio de imprevisibilidades.



Amaury Cardoso

É só para você ter uma ideia - Ep. 24 - Amaury Cardoso

Essa entrevista concedida a minha amiga Teresa Couri - professora, psicanalista, terapeuta ocupacional- foi para mim muito especial. Por nos...